Um programa de luta contra a iliteracia mediática, manipulação jornalística e desinformação

“Fake News” (não engolir)

Por Júlio Roldão*

 

Um dos cartazes de agitação e propaganda que marcaram as paredes de Paris nas noites de Maio de 1968 ostentava um enorme frasco de vidro, com o formato que associamos ao dos frascos de veneno, em cujo rótulo líamos, em Francês, “Presse, ne pas avaler”, ou seja, em Português, “Imprensa, não engolir”.

Hoje, exemplares desse cartaz são leiloados na Internet atingindo valores jamais sonhados por quem o criou. Um produto de agitação e propaganda, crítico em relação ao papel dos jornais no contexto político e social que marcou Paris e a França em Maio de 1968, tornou-se num objecto de culto.

Infelizmente não temos, nestes tempos que vivemos, capacidade para forrar as paredes das cidades com cartazes que recriassem aquele frasco de veneno, identificando-o como o frasco das “Mentiras” e alertando para o perigo de engolir o respectivo conteúdo – “Fake News, não engolir”.

Há 54 anos, os protagonistas da revolta estudantil parisiense que marcaria muitas mudanças em todo o Mundo, há meio século esses livres pensadores desconfiavam de uma Imprensa que consideravam venenosa e consequentemente perigosa. E nesta perspectiva combateram-na com companhas de desacreditação centradas na afixação de cartazes de rua.

Cartazes, quase sempre ou muitas vezes, impressos em papel barato e por técnicas artesanais e artísticas (como a da serigrafia monocromática) a tornar a produção destes materiais de agitação e propaganda mais rápida e mais acessível. 

O acesso simplificado a estes meios de produção facilitou o combate ideológico, o debate de ideias e até a agitação das mentalidades que sempre alimentam momentos como os que se viveram, em Paris, nesse mês de Maio de 1968, e fizeram tremer a França.

Tudo indicaria que num mundo onde a comunicação foi simplificada e alargada por força do acesso às ferramentas que a Internet nos trouxe, neste nosso admirável e novo Mundo Novo, a verdade se sobrepusesse à mentira e fosse tão transparente quanto a água potável que sai pura das fontes.

Infelizmente tal não aconteceu e a realidade da desinformação instalada não é susceptível de ser combatida com eficácia apenas com cartazes que denunciam as “fake news” como sendo veneno que não podemos engolir. 

Esta frente de batalha não bastará, mas é um começo.

Júlio Roldão, jornalista desde 1977, nasceu no Porto em 1953, estudou em Coimbra, onde passou, nos anos 70, pelo Teatro dos Estudantes e pelo Círculo de Artes Plásticas, tendo, em 1984, regressado ao Porto, onde vive.

*Jornalista desde 1977