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A guerra pela nossa privacidade já começou


 

A Apple, empresa norte-americana de tecnologia que produz os modelos mais populares de telemóveis e tablets (iPhone e iMac), decidiu incluir uma actualização inédita no seu sistema operativo. A partir de Março, provavelmente, o iOS 14 vai incluir uma pergunta a todos os utilizadores, de cada vez que estes abrem uma rede social como o Facebook: Aceita que esta aplicação recolha os seus dados de tráfego e os utilize para lhe dirigir publicidade?

A pergunta pode não ser exactamente esta, mas a Apple quer mesmo obter o consentimento informado dos utilizadores para permitir às redes sociais a recolha de dados privados em que estas baseiam o seu modelo de negócio publicitário.

Esta simples pergunta levou o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, a afirmar, numa reunião com accionistas, que, a ser assim, as receitas de publicidade da sua empresa podem vir a cair drasticamente. Aliás, para se preparar para o choque, o Facebook já iniciou um projecto piloto nos EUA em que coloca uma pergunta semelhante de moto próprio, para aferir a dimensão que o problema coloca.

Zuckerberg criticou a Apple, acusando-a de estar a fazer acusações "enganosas" sobre as suas práticas de privacidade. O Facebook está ainda a preparar uma acção judicial antitrust contra a Apple. 

Já o CEO da Apple, Tim Cook, fez um diagnóstico da utilização indevida dos dados privados dos utilizadores pelas redes sociais, numa conferência em Bruxelas, sem nunca nomear o Facebook: "A tecnologia não precisa de vastos depósitos de dados pessoais, costurados entre dezenas de websites e aplicações, para ter êxito", disse num discurso na Conferência Europeia sobre Computadores, Privacidade e Protecção de Dados. "A publicidade existiu e prosperou durante décadas sem isso. E estamos aqui hoje porque o caminho da menor resistência raramente é o caminho da sabedoria".

Para Tim Cook, o problema é demasiado sério e exige medidas inéditas: "Num momento de desinformação desenfreada e de teorias de conspiração potenciadas por algoritmos, já não podemos fechar os olhos a uma teoria da tecnologia que diz que todo o envolvimento é bom - quanto mais tempo melhor - e tudo com o objectivo de recolher o máximo de dados possível. Já passou muito tempo para deixarmos de fingir que esta abordagem não vem com um custo - de polarização, de confiança perdida, e, sim, de violência. Não se pode permitir que um dilema social se torne uma catástrofe social", acrescentou. 

O CEO da Apple defende uma regulação clara das redes sociais, como o Facebook. "Se um negócio é construído sobre utilizadores enganados, sobre exploração de dados, sobre escolhas que não são escolhas, então não merece os nossos elogios. Merece uma reforma".