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Nas presidenciais dos EUA a campanha de desinformação foi local


O gráfico da MIT Technology Review, a revista da universidade americana especializada em tecnologia, é muito claro. Na véspera das eleições presidenciais nos EUA, e nos dias seguintes ao apuramento dos resultados, houve uma campanha de desinformação que “foi altamente direccionada localmente”. Ou seja, os eleitores americanos de estados como a Pensilvânia, o Michigan, a Flórida, a Geórgia, e o Wisconsin foram submetidos a uma manipulação informativa de grande escala.

O MIT trabalhou em conjunto com uma empresa de análise de dados, a Zignal Labs, procurando , desde o início de 2020, menções online relacionadas com intimidação dos eleitores, fraude, falhas técnicas e supressão de votos em locais de votação específicos.

A lista incluía mais de 30 termos de pesquisa e a amostra incluia 16 estados norte-americanos. Metade destes eram “swing states”, ou seja, estados onde a possibilidade de uma mudança de sentido de voto face às eleições de 2016 era alta. A outra metade da amostra incluía vários estados que eram garantidos como seguros, quer para Biden, quer para Trump. 

Os resultados não podiam ser mais claros, revela o estudo: entre 1 de Outubro e 13 de Novembro, os estados swing tinham mais de quatro vezes a quantidade de tais menções - uma média de 115.200”; enquanto nos estados “seguros” a quantidade de menções falsas sobre problemas eleitorais, era de 28.000.

Bhaskar Chakravorti, reitor de negócios globais na Escola Fletcher da Universidade de Tuft, conduz uma investigação sobre as condições que deixam uma comunidade particularmente vulnerável à desinformação. Para este especialista, o enfoque local “é típico de campanhas de desinformação eficazes”, que geralmente “cortam o público alvo nas suas partes mais pequenas e estereotipadas”. Esta forma de "desinformação inteligente" é organizada, garante, da mesma forma que a campanha política. 

A desinformação é "orientada para as nossas esperanças e medos naturais, e as esperanças e medos variam dependendo de quem eu sou", diz ele. "Varia dependendo de quão rico ou pobre eu sou. Varia dependendo de qual é a minha etnia ou raça.” 

Na Florida, explica o MIT, os eleitores latinos foram sujeitos a intensas campanhas baseadas na sua idade, património, ou perfis, uma vez que ambos os partidos lutaram para ganhar o estado. Como resultado, diz Chakravorti, os eleitores desconfiaram da informação política em geral e passaram a confiar na informação que recolhiam através de canais mais privados - que eram, de facto, ambientes propícios para desinformação localizada e que se tornaram particularmente difíceis de confrontar.

Todos estes problemas surgiram apesar de os funcionários eleitorais estarem significativamente melhor preparados para os desafios em 2020 do que nas eleições presidenciais anteriores. Muitos responsáveis fizeram apelos para dirigir as pessoas para fontes de informação fiáveis sobre a votação, ao mesmo tempo que lutavam contra rumores específicos. 

Elizabeth Howard, conselheira principal do Centro Brennan para a Justiça, descreve ao MIT esta abordagem: Envolveu "educar proactivamente os eleitores sobre o que se passa", diz, "e depois, em diferentes graus, funcionários eleitorais que trabalham para identificar e combater a desinformação e a desinformação a nível local e hiper-local". 

Chakravorti garante que combater esta desinformação no futuro pode exigir a utilização de campanhas mediáticas de pequena escala, recorrendo a influenciadores locais, e anúncios a nível comunitário que difundam conteúdos de confiança. Mas estas tácticas não vão resolver as questões estruturais mais profundas que tornam uma comunidade vulnerável à desinformação. Chakravorti descobriu, sem surpresa, que alguns indicadores chave da vulnerabilidade dos estados americanos incluem competitividade política, níveis de educação, polarização, e grau de confiança nas fontes noticiosas. E nenhuma dessas questões é nova.

A desinformação, conclui o MIT, “é quase sempre mais eficaz a nível local. É pior em ambientes polarizados e fechados. É mais provável que acreditemos nas coisas do nosso próprio círculo”.