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Por que existem fake news, e por que nos devemos preocupar?


As fake news não são sempre óbvias, flagrantes ou sequer visíveis, na medida em que nem todos somos confrontados com elas quando exploramos os nossos feeds nas diferentes redes sociais. Para mim, pelo menos, não o eram, embora soubesse da sua existência e dos problemas (cada vez mais) sérios que colocavam em sítios tão distantes como os Estados Unidos ou o Brasil…
Há, aliás uma razão para a nossa ignorância: o Facebook não é uma base de dados aberta, ou um fio comum de informação que todos vemos da mesma maneira. A informação a que cada um de nós tem acesso é escolhida, por complexos (e secretos) algoritmos que trabalham num sistema de inteligência artificial capaz de prever aquilo que cada um de nós quer ver. Traduzindo: se eu «abro» sobretudo links de desporto na minha página (o feed), o Facebook conclui que esse é o meu
tema preferido e vai publicar, no meu feed, mais e mais notícias, vídeos e imagens de desporto para que eu continue a gostar da minha experiência. Cada um de nós vê o que o Facebook lhe mostra, porque isso é o que prevê que nos vai agradar. Por essa razão, se eu não recebo (nem os meus amigos partilham) fake news, é muito provável que eu nunca chegue a ver nenhuma. Mas isso não significa que elas não existam.
Para que as mentiras existam é preciso que alguém as crie. E só em Portugal há mais de 40 sites a fazê-lo, neste momento. Depois, é necessário que a mensagem passe, que não fique esquecida num qualquer canto da imensa actividade das redes sociais, momento em que entram os propagandistas, os difusores profissionais da desinformação. Podem ser agências de comunicação, militantes de causas obscuras (na gíria, trolls), computadores programados para disseminar links através de contas falsas (bots, diminutivo de robot).
A pergunta seguinte será «por que o fazem?» Encontrei exemplos de várias motivações. Uma das mais óbvias é a agit-prop (agitação e propaganda) política. As redes sociais são o palco para várias campanhas daquilo a que hoje se chama de «polarização», onde as convicções pretendem reinar numa guerra sem tréguas com os adversários. As fake news são um instrumento eficaz para denegrir, atacar, instalar a dúvida sobre as características, defeitos e acontecimentos «secretos» da
vida dos rivais. Numa eleição, esse é o poder de quem quer desmobilizar os adversários, retirando-lhes votos de pessoas que estavam disponíveis para os apoiar. Também é assim que se mobilizam os que estão convencidos de que esses adversários, além das más proposta que fazem para uma hipotética governação, são maus, pérfidos, corruptos. Foi assim que a Cambridge Analytica – a que
voltaremos em breve – criou o célebre slogan «crooked Hillary» para Trump usar na campanha americana de 2016, em que os dois O do adjetivo (desonesta) apareciam desenhados como se fossem algemas.
Há também pequenos grupos, geralmente excluídos da «moldura» informativa tradicional, que têm nas redes sociais um speakers corner gratuito. Refiro-me aos simpatizantes nazis, supremacistas brancos, nacionalistas radicais. Impedidos de aceder aos maiores espaços informativos por razões editoriais e, nalguns países, por imperativo legal, estes militantes de extrema-direita usam as redes sociais para levarem a cabo uma propaganda muito eficaz, baseada sobretudo em campanhas negativas sobre os adversários, com base em mentiras, explicando assim o êxito recente do discurso do ódio em muitos países europeus. As vítimas deste discurso têm sido os refugiados, os judeus, os muçulmanos, as mulheres, os gays e todos os políticos que aparecem descritos como inimigos da «identidade nacional e cultural».
Mas há ainda uma razão, mais prosaica: o lucro. Escrever, publicar, difundir e replicar fake news é um grande negócio. Se há 40 sites a criar mentiras (e, pelo meio, a copiar o que escrevem os jornais e TVs para garantir tráfego), e mais de 2,5 milhões de pessoas, em Portugal, a receber o que escrevem, isso tem um valor e que constitui algo a que hoje se chama «publicidade direcionada». O termo nasceu, e cresceu, como um elogio, no mundo online: «viral» é tudo aquilo que chega a um
número grande de pessoas. Essa é a base das receitas de publicidade online. Quanto mais clicks uma história tem, mais dinheiro recebem os seus autores. Uma mentira eficaz tem, muitas vezes, muito mais clicks que uma história complexa.
Desde 2016, quando tomámos consciência do escândalo Cambridge Analytica e nos apercebemos da estrutura do problema colocado pelas grandes plataformas online (recolha e cedência de dados de utilizadores, ausência de controlo editorial sobre as publicações, por exemplo), sentimos que a democracia pode, ela própria, ser o alvo de um novo tipo de campanha de manipulação da opinião pública.

Paulo Pena