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SUBLINHA O DIRECTOR DO PÚBLICO: “Fake news” destroem a confiança


As chamadas “fake news” são um fenómeno complexo, com um efeito “pernicioso na destruição da confiança” - sublinhou Manuel Carvalho, Drector do PÚBLICO, na segunda palestra da iniciativaPSuperior, que decorreu na passada quinta-feira na UTAD (Universidade de Trás-os -Montes e Alto Douro), em Vila Real, em que se falou do papel que jornalistas e leitores podem assumir no combate à disseminação das “notícias falsas”.

Fábio Fonseca Ribeiro, professor na referida Universidade, referiu que este não é um fenómeno novo, mas “que nunca teve a actual dimensão avassaladora”. O docente salientou que há algo de fascinante na mentira, lembrando que não é por acaso que estudos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts apontam para o potencial de partilha “exponencial” de notícias falsas, habitualmente bem maior que o de histórias verídicas. Mesmo os grandes meios de comunicação, revelam dificuldade em lidar com fake news, pelo que, às vezes, “caem na mentira”. Para isso também contribui a pressa de dar primeiro as notícias, referiu o professor, aplaudindo a existência de cursos tecnológicos que podem ajudar a combater uma disseminação irreflectida de “notícias falsas”.

Fábio Fonseca Ribeiro disse ainda que as tecnologias, que contribuíram para a proliferação das “notícias falsas”, também conseguem “ajudar a condená-las”. O docente deu os exemplos da Checazap e do NewsGuard. O primeiro corresponde a um projecto desenvolvido por alunos da Escola de Jornalismo da Énois, em São Paulo, pouco antes da eleição de Jair Bolsonaro. O objectivo dos criadores passava pela realização de verificações de “notícias falsas com impacto político eleitoral” que eram partilhadas nos grupos de WhatsApp aos quais estavam associados. O segundo é uma extensão de navegador que, clarifica Fábio Fonseca Ribeiro, “dá um alerta” ao utilizador sempre que este abre conteúdos “cuja veracidade é mais duvidosa”. Basicamente – e apesar de, para já, estar “reservado ao contexto norte-americano” –, estamos a falar de um “medidor geral de confiabilidade”.?

Ferramentas que podem facilitar o consumo inteligente de notícias nas redes sociais – um terreno no qual, explica o jornalista Ivo Neto, do PÚBLICO, “impera a emoção”. Na esfera digital, considera o professor no ISMAI, “vivemos em bolhas”. “Seguimos aquilo com que concordamos”, ao mesmo tempo que, no sentido inverso, nos distanciamos “do que nos afronta”. “Gostamos que nos massajem o ego” – e criamos uma “mentalidade perigosa de ‘nós contra eles’, que quase deixa de parte a racionalização”. Isto cria problemas como a “guerrilha de conteúdos”: lados opostos da barricada aos gritos, embora não necessariamente a discutir ou dialogar. Cenário potencialmente perfeito para a proliferação da mentira.

"Responsabilização das instituições"

Como podemos fazer frente a esta situação? Ivo Neto sugere, a título de exemplo, a “responsabilização das instituições”. Se calhar, as “empresas deviam deixar de pagar publicidade a plataformas com conteúdo duvidoso”, validando-as ou permitindo a sua manutenção. Se calhar, por outro lado, falta treino para conseguirmos ler as notícias “com olho crítico”.

Também a intervir na sessão, o secretário-geral adjunto da Associação Portuguesa de Imprensa, Carlos Eugénio, aludiu a um contributo importante no que diz respeito a este último ponto. Referindo que faz parte do Media Veritas, um “programa de luta contra a iliteracia mediática, manipulação jornalística e desinformação”, acrescentou:

“Queremos fazer deste projecto um repositório com tudo o que se faz no nosso país em termos de investigação sobre notícias falsas”. E lançou um repto aos participantes: “Antes de partilharem alguma coisa nas redes sociais, pensem bem no que acabaram de ler.”

A próxima palestra do PSuperior acontece a 11 de Março, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. “Conseguirá o Estado de Direito sobreviver ao populismo?” é a questão que vai lançar a conversa. O objectivo desta iniciativa passa por promover a literacia mediática nos estudantes universitários. O propósito é não apenas formar os jovens, levando-os a consumir jornalismo, mas também envolvê-los em causas cívicas.